ORIENTAÇÃO BÁSICA PARA ANÁLISE DE CARTEIO
No jogo de Bridge, para se jogar na máxima chance na tarefa de se fazer vazas, é fundamental que se conheça as probabilidades de distribuição das cartas ausentes. Assim sendo, após as cartas terem sido dadas, cada cruzeta (N-S ou E-O) terá uma conjunto de cartas em cada naipe e haverá um resíduo (sobra) desse naipe na cruzeta oposta. O conhecimento do cálculo das probabilidades de distribuição desse resíduo, entre as mãos oponentes, é de muita importância para um carteio que busque não a sorte, mas sim o conhecimento da maior esperança matemática (probabilidade), para seu sucesso. No entanto, no decorrer do leilão, uma marcação de naipe longo pelo oponente, ou a constatação durante o carteio da ausência de um naipe em um oponente, são informações adicionais que devem ser processadas pelo Carteador (Declarante) para eliminar várias das probabilidades a priori da distribuição dos resíduos e portanto trabalhar somente com as probabilidades de distribuições possíveis:
Neste simples texto vamos abordar 3 significativos temas baseados em
probabilidades:
1- Estudo dos resíduos e distribuição a priori das cartas
de um naipe;
2- Estudo do princípio do "Restricted Choise" como suporte de
decisão para "finesse";
3- Estudo do lugares vagos para permitir uma avaliação, em termos
de probabilidade, para se inferir quem está mais propenso a ter determinada
honra ou número de cartas.
1) Estudos dos resíduos:
TABELAS PARA ORIENTAR A MELHOR LINHA DE CARTEIO
Esta
Tabela mostra a probabilidade do comprimento de uma
honra na mão adversária
| RESÍDUO | CARTA SECA | SEGUNDA | TERCEIRA | QUARTA | QUINTA |
| 2 cartas | 52,00% | 48,00% | |||
| 3 cartas | 26,00% | 52,00% | 26,00% | ||
| 4 cartas | 12,44% | 40,70% | 37,30% | 09,57% | |
| 5 cartas | 06,75% | 27,12% | 40,71% | 22,61% | 03,91% |
| 6 cartas | 02,42% | 16,15% | 35,53% | 32,30% | 12,11% |
| 7 cartas | 00,96% | 08,76% | 26,90% | 35,53% | 21,80% |
| 8 cartas | 00,36% | 04,28% | 17,67% | 32,72% | 29,45% |
Exemplo1 de uso dessa tabela.
Você tem um naipe de AKQ10 na seca (5 cartas no naipe) e quer saber se é melhor fazer finesse de 10 ou jogar A, K, Q, esperando que caia o Valete seco, segundo ou terceiro. É claro que a finesse de 10 possui 50% de chance de sucesso. Para calcular a queda da honra seca, segunda e terceira devemos pesquisar a tabela na linha de cartas do resíduo em estudo. Considerando que temos 5 cartas no naipe o resíduo para 13 é de 8 cartas (última linha da tabela) e a soma será = 0,36 + 4,28 + 17,67 = 22,31% portanto a queda do Valete, de qualquer lado tem uma chance inferior. O correto será fazer a finesse de 10 quando falta o Valete e temos 5 cartas no naipe.
Exemplo 2 de uso dessa tabela.
Você tem agora AKQ1098 na seca (7 cartas no naipe) e quer saber se é melhor fazer a finesse de 10 ou bater por cima A, K, Q, esperando a queda do Valete seco, segundo ou terceiro. A solução é consultar a tabela onde encontramos que para um resíduo de 6 cartas a probabilidade de honra seca é de 2,42%, de honra segunda é 16,15% e de honra terceira é 35,53%, portanto somando temos 2,42 + 16,15% + 35,53 = 54,10%. Logo a chance da queda é maior que fazer a finesse que nesse caso não é 50% pois se o Valete estiver quinto ou sexto, mesmo bem colocado, o naipe não fica firme, ou seja, para calcular a a chance da finesse devemos somar somente as metades das probabilidades de Valete seco, segundo, terceiro e quarto para ter o naipe firme, isto resulta em: 1,21 + 8,08 + 17,77 + 16,15 = 43,21%.
Portanto o correto, com 7 cartas no naipe, faltando o Valete, é bater por cima pois a relação é 54,10% favorável contra 43,21% da finesse, que ajustando nos dá:
54,10x100 43,21x100
------------ = 55,5% pela queda contra ------------- = 44,5%
pela finesse
54,10+43,10
54,10+43,10
Sabemos que com 5 cartas no naipe, faltando o Valete, o correto é fazer a finesse do 10 e com 7 cartas o correto é bater por cima, resta analisar com seis cartas, portanto verifique você o que fazer na combinação de cartas AKQ109 na seca.
Tabela que determina a repartição dos resíduos entre os
adversários
| NÚMERO DE CARTAS |
DISTRIBUIÇÕES DO NAIPE NOS OPONENTES |
PORCENTAGEM
% |
QUANTIDADE DE OCORRÊNCIAS |
| 2 | 1
- 1 2 - 0 |
52,00 48,00 |
2 2 |
| 3 | 2
- 1 3 - 0 |
78,00 22,00 |
6 2 |
| 4 | 3
- 1 2 - 2 4 - 0 |
49,74 40,70 09,57 |
8 6 2 |
| 5 | 3
- 2 4 - 1 5 - 0 |
67,83 28,26 03,91 |
20 10 2 |
| 6 | 4
- 2 3 - 3 5 - 1 6 - 0 |
48,45 35,53 14,53 01,49 |
30 20 12 2 |
| 7 | 4
- 3 5 - 2 6 - 1 7 - 0 |
62,17 30,52 06,78 00,52 |
70 42 14 2 |
| 8 | 5-3 4-4 6-2 7-1 8-0 |
47,12 32,72 17,14 02,86 00.16 |
112 70 56 16 2 |
| 9 | 5-4 6-3 7-2 8-1 9-0 |
58,90 31,41 08.57 01,07 00,05 |
352 168 72 18 2 |
O importante desta tabela é que ela
mostra as
probabilidades da distribuição dos resíduos entre os adversários,
independentemente
de como é o nosso naipe, se temos um naipe que tem 4 cartas na mão e 3 no
morto ou se temos 5 cartas na mão e duas no morto, a probabilidade da
distribuição do resíduo é calculada ignorando-se a distribuição do naipe
entre a mão e o morto.
Olhando a tabela acima no resíduo de 6 cartas (mão e morto soma 7 cartas), vemos
que o resíduo 4 a 2 ou 2 a
4 é mais provável que o resíduo 3 a 3 na relação aproximada de 48 para 35.
Isso significa que a priori devemos supor que o naipe está mais propenso na
distribuição 4 a 2 do que 3 a 3.
Evidentemente ele poderá estar 3 a 3, ou 5 a 1, ou até 6 a 0, porém devemos
sempre cartear o naipe assumindo as duas probabilidades maiores de ocorrência e
sempre que possível devemos jogar pela distribuição mais favorável.
No caso de naipe com 7 cartas, embora a distribuição do
resíduo em 4 a 2 (ou 2 a 4) seja mais provável, a distribuição 3 a 3 é
também bastante alta. Já no caso de 8 cartas no naipe, o resíduo de 5 cartas
mostra que a distribuição 3 a 2 (ou 2 a 3), quando comparada com a
distribuição 4 a 1 (ou 1 a 4), mostra uma relação a priori aproximada de
68 contra 28, o que mostra ser a distribuição 3 a 2 bem mais provável que 4 a
1 e portanto devemos assumir que o correto é praticamente ignorar a hipótese
da distribuição 4 a 1. Evidentemente, como jogada de segurança, devemos em
certos casos considerar a distribuição 4 a 1, porém desde que isso não
sacrifique o ganho de vazas a mais que são importantes se for jogo de torneio.
Por exemplo, você está carteando 6ST e teve uma saída favorável (
J)
que lhe permite fazer uma jogada de segurança na mão que se segue:
AKx =====
xx
contrato 6ST saída
J
Axxx ! N !
10x
AKQJ ! O E !
xxx
xx
! S !
AKQxxx
=====
Num torneio de duplas ou num jogo de quadras o correto seria o contrato de 7ST que ganha se os Paus estiverem divididos 3 a 2 (ou 2 a 3), ou seja 68% de chance, porém se você está jogando uma quadra onde uma vaza a mais representa quase nada, o correto, após a saída de Espadas é dar um golpe em branco de Paus, torcendo para que esse naipe esteja 4 a 1. Nesse caso você cumpre o contrato em 96% das vezes (67,83 + 28,26) pois agora você só perde se o Paus estiverem 5 a 0. Já no jogo de duplas você deve jogar os Paus por cima tentando fazer as 13 vazas pois sempre haverá duplas que também não chegaram ao bom contrato de 7ST, porém se o jogo for dobrado, alto sintoma que os Paus devem estar 4 a 1, fazer a jogada de segurança é obrigatória.
Vamos agora trocar na mão de ESTE uma carta de Paus por uma de Espadas e acrescentar a Dama de Espadas em OESTE:
AKQ =====
xxx contrato 6ST saída
J,
Axx ! N !
10x
AKQJ ! O E !
xxx.
xx ! S !
AKQxx
=====
Considerando a mesma saída favorável temos que a divisão dos Paus 3 a 3 é a priori de 35,53%, porém se acrescentarmos a divisão 4 a 2 como sucesso para fazer 12 vazas chegamos a uma chance de 48,45 + 35,53 = 83,98%. Num jogo de quadra a linha obrigatória é ceder inicialmente uma vaza de Paus e depois fazer AKQ e o quinto Paus, caso o naipe esteja 3 a 3 ou 4 a 2. No jogo de torneio somente um jogador despreparado tecnicamente, que não joga na máxima chance, irá jogar pela divisão 3 a 3 dos Paus, que embora possa lhe trazer uma ótima nota nesta bolsa, não é a linha correta de carteio, pois o objetivo maior é cumprir o contrato e somente devemos querer jogar por vazas a mais quando isso for bem favorável em termos de probabilidade, ou quando estamos mal no torneio e precisamos lugar por situações especiais, pois senão não temos chance de boa colocação.
2) Sobre o principio da Escolha Restrita a orientação mais
usual se aplica na seguinte situação:
a) Você tem um naipe na configuração A1092 - K8765,
faltando portanto a Dama e o Valete mais duas cartas pequenas. Digamos que você
joga o 2 e seu oponente a esquerda serve uma honra (Q ou J) que você cobre com
o Rei enquanto o outro oponente serve o 3. Você agora joga o 5 e seu oponente a
direita serve o 4. Nesse momento você tem que decidir entre fazer uma finesse
passando o 10 na esperança que a distribuição adversária fosse H - H43, ou
bater o Ás na esperança que a distribuição adversária fosse HH - 43. Pois
bem, o princípio da escolha restrita diz que nessa situação a distribuição
HH - 43 tem 33% de chance enquanto que H - H43 tem 66% de chance, logo devemos
fazer a finesse.
b) Você tem um naipe na configuração A1098 - K765, faltando portanto a Dama e o Valete mais três cartas pequenas. Digamos que você jogue o 5 e seu oponente sirva uma honra (Q ou J) coberta pelo Ás enquanto que o outro oponente serve o 2. Você joga agora o 10 e seu oponente a esquerda serve o 3. Qual é a melhor chance, jogar por H - H432 ou jogar por HH - 432 ? Novamente o princípio da Escolha Restrita diz que jogar por H - H432 tem 66% enquanto que jogar por HH - 432 tem somente 33%. É claro que existem as outras opções de distribuição como HHx - x2 que não são o foco da decisão pois nesse caso sempre se daria uma vaza no naipe. Conclusão, devemos fazer a finesse.
Evidentemente existem situações que temos que jogar por
trunfos divididos para ter sucesso no carteio e outras vezes temos que
considerar outros fatores como a contagem da mão total do oponente que pode
determinar a quantidade de cartas que ele tem em cada naipe e nesses casos temos
que ignorar o princípio da Escolha Restrita como orientação para carteio. Leia
estudo completo aqui
3) Sobre lugares vagos a orientação geral é a seguinte:
a) Se um oponente se apresenta com um naipe longo, digamos de
6 ou 7 cartas de Copas, enquanto que o outro oponente está curto, com 1 ou 2 cartas
nesse naipe, fica claro que se queremos uma orientação para optar na escolha
de qual oponente está mais propenso a possuir uma determinada honra de outro
naipe, digamos a Dama de Espadas, é mais provável que ela esteja na mão de quem tem mais
lugares vagos para caber essa honra, no caso na mão de quem 1 ou 2 cartas de
Copas. Por exemplo, NORTE abre o leilão de 3
,
que indica uma barragem com 7 cartas desse naipe, e E-O acaba no contrato de 4
, com as
seguintes cartas:
KJ974
N
A1082
Leilão: N E S O
84
O E
102
3
-
- dobro
AK
S
9542 - 3
- 4![]()
AKQ3
865 - - -
Ambos vulneráveis, saída de NORTE A e K de Copas onde SUL sinaliza dubleton, na terceira vaza NORTE joga o 6 de Ouros. O problema da mão está em fazer somente 10 vazas se a Dama de trunfo não for encontrada ou fazer 11 vazas em caso contrário. Quem está mais propenso a ter a Dama de Espadas e porquê?
Resposta é SUL, porque após ficar claramente definida a
distribuição das Copas, 7 na mão de NORTE e 2 na mão de SUL, em NORTE há
6 lugares vagos para caber a Dama de Espadas e em SUL há 11 lugares vagos.
Está claro que devemos bater o Ás de Espadas (a
Q
pode estar seca) e fazer a finesse de Valete
jogando pelas Espadas 3 a 1 e não 2 a 2 que seria o correto (52%) se NORTE
tivesse passado e nós não tivéssemos recebido essa informação de que ele tem 7
cartas de Copas. A relação de 11 a favor e 6 contra de que a Dama de Espadas
esteja em SUL, em termos percentuais é 11/17=64,7% a favor e 6/17=35,3% contra.
Ou seja, uma grande chance das Espadas estarem 3 a 1.
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